sexta-feira, 26 de outubro de 2007

PELÍCULA


Espalhada nas entradas das paredes, uma película transparente cheia de reflexos separava, e ao mesmo tempo não, o dentro e o fora. Dentro, que só existia olhando de fora, não levava a lugar nenhum: uma sala sem saída, que era mais um cubo dentro daquele outro. Fora, a película parecia tão fina e delicada que uma leve brisa poderia rompê-la, mas era grossa o suficiente para não deixar ventania alguma passar.
Sua transparência e reflexo me iludiam, não sabia o que estava dentro e o que estava fora. Com isso, podia me ver lá dentro estando a olhar de fora.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

RITMO INCESSANTE


Chovia. Eu partia em direção àquele caminho escuro, onde seu fim o olhar não alcançava. Outros o cruzavam em um ritmo infinito.
Olhando em direção ao alto, ao longe, esse ritmo continuava. Era como se aquele caminho fizesse uma curva em direção ao céu, formando um grande bloco alongado. De onde ele surgia, nada sabia. Sua origem era incerta, assim como a de um arco-íris no céu azul.Era tudo muito confuso.
Tinha a impressão de que esses grandes blocos verticais mudavam, pois hora pareciam tão pesados e difíceis de não serem notados, e outras eram leves e imperceptíveis. Quando ficavam desta maneira, se misturavam ao céu, refletindo-o em suas laterais, imitando-o, como se tentasse fazer desaparecer com sua notória presença.
As ritmadas e incessantes linhas, tanto horizontais quanto verticais, estavam por todos os cantos. Sejam nos caminhos que se cruzavam até o longe, nos grandes blocos verticais que pareciam continuá-los; nos pingos de chuva que caiam e em todas as linhas que cruzavam o piso daquele chão. Faziam com que qualquer um se confundisse, tendo sempre a sensação desesperadora de estar perdido, de voltar sempre no mesmo lugar, ou estar dentro um labirinto.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

ACORDANDO



Abri os olhos.Caia sem parar em um grande precipício onde do chão nada se via.Não sabia onde estava, muito menos se caia.As paredes se aproximavam.Havia globos de luzes, presos por canos de ferro que saiam do final daquele precipício (se é que havia um final), mas não conseguiam iluminar aquele fundo escuro. O espaço diminuía cada vez mais conforme caia.A partir daí, já não me preocupei mais com nada: nem com a queda, nem aonde ela iria me levar; mas sim, se aquelas paredes rochosas iriam me esmagar.Fechei os olhos e o vazio tomou conta da minha mente. Abri-os novamente, e já não caia mais.Encontrei-me deitado em um chão escuro, onde parecia ser um rio onde as águas não corriam mais, mas que levava a algum lugar.Era aquilo o que parecia ser o fim da interminável queda: um caminho de pequenas pedras pretas, que de tão juntas, se transformava numa coisa só.
As paredes, já não se aproximavam mais.Ficaram lisas e de um tamanho bem menor.Ao longo daquele caminho, as paredes possuíam entradas, cada uma com cores diferentes, como se uma tentasse mais que a outra me convidar a entrar.Era tentador.
Havia acordado? Se havia, não sabia se era de um sonho ou de uma realidade.